A viagem para Niteroi era trivial... pessoas cruzam do Rio de Janeiro pra Niteroi e voltam a todo instante, como quem vai ao bairro vizinho. Meu ônibus chacoalhava e a pista era "engolida" rapidamente, agitando "meus miolos" e ritmando os pensamentos...
Mal podia esperar para buscar minha mãe no hospital. Queria vê-la voltando ao mundo afinal, alguns dias dentro de um hospital nos fazem achar que viveremos naquele "mundo branco e frio" para sempre.
E nao parava por aí... Preocupações iam e vinham... Nancy, eternamente com seu rostinho de anjo, não conseuia esconder: Ela não estava bem e eu a deixei sozinha. Bastava a lembrança da imagem de seus olhos ao ver a carta para eu sentir um arrepio na coluna... Assustador...
Certo de que os problemas de Nancy se resolveriam rapidamente no domingo, decidi que a convidaria para a festa.
E, lembrando de Nancy, uma inquietação que havia ficado esquecida voltou à tona com toda força: "Será que ela gosta de mim?" Diversos momentos plantaram esta dúvida e dois outros me fizeram sentir que eu não era um amigo qualquer para ela.
Preferi não ficar pensando nisso. Quando voltasse eu teria tempo de sobra com Nancy e naturalmente esta questão se dissiparia pelas horas de companhia e respostas viriam, provavelmente acompanhadas de mais perguntas.
Os 11km a serem percorridos pareciam 1000, tamanha a minha ansiedade que eu já não sabia ao certo se era pela chegada a Niterói ou pelo retorno à minha casa.
A ponte chegava ao final e eu mal podia esperar para chegar ao Hosp. Santa Cruz.
Chegando ao hospital, notei que não havia mais pensado em nada no restante do caminho. Era como se algo tivesse apagado os ultimos minutos de minha memória.
Me informei na recepção e subi em disparada para o quarto de minha mãe. Já a encontrei de pé pronta para sair. Corri para abraçá-la... Um abraço longo mas não forte, afinal ela estava se recuperando.
Enquanto colocáva-mos os assuntos em dia, meus avós e meu pai ajeitavam as coisas lá no quarto do hospital. Seria a última noite antes de receber alta. Minha noite lá.
Quando as coisas foram se acalmando, corri para o MSN. Nancy estava online. Eu corei. Ela me mandou a música "Hot" de "Avril Lavigne" e falou que quando cantava, dedicava a mim... Corei. Corei não... fiquei roxo, preto, invisível, branco, vermelho... Não sabia o que pensar ou falar.
Respirei fundo e mudei de assunto. Falei da festa pra desviar a atenção. Ela não se mostrou tããão empolgada com a idéia, mas acho que consigo arrastá-la pra sair comigo ( mesmo que seja pra essa festa aí... ). Estou achando ela muito tristinha e calada pelos cantos. Detesto vê-la assim. Me deixa triste também.
Eu a havia escolhido para ser meu "contrapeso" sentimental. Uma escolha inconsciente mas, sábia. Não sei o que ela tinha demais,,, O fato é que meu humor e meus sentimentos eram afetados pelo humor e pelos sentimentos dela. Ela chorava e eu ficava triste, arrasado, tentando de tudo para alegrá-la. Ela sorria e eu ficava todo felizão! Uma sensação engraçada e estranha, de força, até então, desconhecida.
Assim que Nancy me viu, enxerguei uma alegria incomum em seus olhos. Ela parecia saltitante por dentro. Fui me aproximando para abraçá-la... Essa viagem parecia ter durado 1 ano.
Devo admitir que também me senti muito bem em tê-la por perto de novo. No meio do abraço do reencontro, percebi Nancy com um papel muito dobrado na mão. Segundos depois, ela me disse:
- Leia... Não fui eu que escrevi, mas é o retrato do que preciso te dizer. - ela corou.
Desdobrei o papel e encontrei a letra de I Will Be (Avril Lavigne). Senti que ao ler minhas bochecas iam se afastando e um sorriso se formava. Percebi também que estava corando. Então não me contive e, meio trêmulo, com cara de bobo, dei-lhe outro abraço.